Remakes e remasters: por que jogos antigos continuam vendendo tanto?

Entenda por que remakes e remasters se tornaram tão importantes para a indústria dos games e como nostalgia, franquias conhecidas e custos de desenvolvimento influenciam esse mercado.

Isac Martins

9/30/20268 min read

EA indústria dos games vive uma contradição curiosa. Enquanto grandes publishers investem cada vez mais dinheiro e anos de desenvolvimento em novos jogos, títulos antigos continuam encontrando espaço nas prateleiras digitais.

O fenômeno ficou especialmente evidente com The Elder Scrolls IV: Oblivion Remastered. Lançado em abril de 2025 praticamente sem uma campanha de divulgação tradicional, o jogo terminou o mês como o título mais vendido nos Estados Unidos segundo a Circana. Mais impressionante: o remaster vendeu, apenas em abril, mais unidades do que o Oblivion original havia vendido durante seus primeiros 15 meses no mercado.

O caso ajuda a explicar por que remakes e remasters se tornaram uma estratégia tão importante para a indústria.

Mas existe um detalhe importante: os dados disponíveis não mostram simplesmente que remasters vendem mais do que jogos inéditos. Na realidade, pesquisas recentes indicam que remakes podem gerar ainda mais gastos do consumidor do que remasters, enquanto ambos conseguem transformar franquias antigas em produtos comercialmente relevantes.

Remaster e remake não são a mesma coisa

Antes de entender por que esses projetos funcionam, é importante separar dois conceitos que frequentemente são confundidos.

Um remaster parte do jogo original e procura modernizar sua apresentação e compatibilidade. Isso pode envolver resolução maior, texturas aprimoradas, melhorias de áudio, desempenho, iluminação, controles e interface.

A estrutura fundamental do jogo, entretanto, permanece próxima daquela existente na versão original.

Um remake possui uma proposta mais ampla. Nesse caso, o jogo pode ser reconstruído praticamente do zero, utilizando uma nova tecnologia e podendo alterar gráficos, animações, combate, cenários, controles e até determinados elementos da narrativa.

Por isso, um remake normalmente exige um investimento maior do que um simples remaster.

O caso impressionante de Oblivion Remastered

O lançamento de The Elder Scrolls IV: Oblivion Remastered se tornou um dos exemplos mais interessantes dessa estratégia.

A Bethesda e a Virtuos colocaram o jogo no mercado em abril de 2025, e o título imediatamente alcançou o primeiro lugar no ranking mensal da Circana nos Estados Unidos. A empresa de análise também registrou o remaster como o terceiro jogo mais vendido do país no acumulado de 2025 naquele momento.

O desempenho chamou ainda mais atenção porque o lançamento aconteceu de maneira inesperada, com o jogo sendo disponibilizado praticamente de imediato após sua apresentação.

Segundo dados divulgados por Mat Piscatella, da Circana, Oblivion Remastered vendeu mais unidades em abril de 2025 do que o Oblivion original havia vendido durante seus primeiros 15 meses de mercado. Em valor de vendas de jogos completos, o remaster também superou o desempenho do original nos primeiros 14 meses.

Isso mostra como uma propriedade intelectual antiga pode voltar rapidamente ao centro das atenções quando recebe uma nova apresentação.

Por que a nostalgia é tão poderosa?

Uma das explicações está na nostalgia.

Jogadores que conheceram um determinado game durante a infância ou adolescência não estão comprando apenas gráficos atualizados quando encontram um remake ou remaster.

Eles também estão comprando uma oportunidade de reencontrar uma experiência que já possui significado pessoal.

Esse mecanismo não é exclusivo dos videogames. Filmes, séries, músicas e outras formas de entretenimento utilizam há décadas personagens e obras conhecidas para despertar memórias e sentimentos associados ao passado.

E existem pesquisas acadêmicas que ajudam a explicar por que essa estratégia pode funcionar comercialmente.

O que a ciência diz sobre nostalgia e consumo

Um estudo publicado no Journal of Consumer Research, intitulado Nostalgia Weakens the Desire for Money, analisou a relação entre nostalgia e comportamento de consumo.

Os pesquisadores realizaram seis experimentos e observaram que participantes induzidos a sentir nostalgia demonstraram maior disposição para gastar dinheiro em determinados produtos. Os experimentos também encontraram redução no valor subjetivo atribuído ao dinheiro.

Segundo os autores, um dos mecanismos envolvidos está relacionado à capacidade da nostalgia de aumentar a sensação de conexão social.

Isso não significa que qualquer produto nostálgico automaticamente venderá bem. O estudo trata de um mecanismo psicológico específico, e não de uma garantia de sucesso comercial.

Mesmo assim, a descoberta ajuda a entender por que marcas de entretenimento frequentemente recorrem a elementos conhecidos.

No mercado de games, essa lógica ganha uma característica adicional: o consumidor pode ter uma relação muito mais direta com a obra original.

Ele não apenas assistiu à história. Ele jogou, explorou o mundo, derrotou inimigos e criou memórias enquanto controlava aquele personagem.

A nostalgia reduz o risco para as publishers?

Existe também uma questão econômica.

Criar um grande jogo AAA do zero envolve riscos consideráveis. Além do desenvolvimento tecnológico, existem custos relacionados a produção, captura de movimento, dublagem, testes, marketing, distribuição e suporte pós-lançamento.

Em projetos gigantescos, o período de produção também pode se estender por vários anos.

Isso faz com que uma franquia conhecida tenha uma vantagem importante: o público potencial já sabe que aquela marca existe.

Uma nova propriedade intelectual precisa primeiro conquistar atenção. Um remake de uma franquia conhecida começa com uma comunidade que já conhece o nome.

Isso não elimina o risco, mas pode diminuir parte da incerteza relacionada ao reconhecimento do produto.

Por que remakes e remasters continuam conquistando os jogadores?

Jogos antigos também funcionam como marcas consolidadas

Quando uma publisher anuncia um remake de uma franquia conhecida, ela não está apresentando somente um jogo.

Está apresentando uma propriedade intelectual com décadas de história, personagens conhecidos e uma comunidade formada ao longo dos anos.

É por isso que franquias como Resident Evil, Final Fantasy, Silent Hill, The Last of Us, Dead Space e Metal Gear Solid continuam sendo relevantes para estratégias de relançamento e reconstrução.

O nome funciona como um ponto de entrada.

Para jogadores antigos, existe a curiosidade de reencontrar uma experiência conhecida.

Para jogadores mais novos, o remake pode ser a primeira oportunidade de conhecer uma obra que originalmente saiu em uma geração anterior.

Os números mostram que remakes e remasters movimentam muito dinheiro

Uma análise da Ampere Analysis ajuda a dimensionar esse mercado.

A empresa acompanhou 42 remakes e remasters lançados entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, sendo 15 remakes e 27 remasters, nas plataformas Xbox, PlayStation e Steam.

Nesse período, esses jogos acumularam 72,4 milhões de jogadores e mais de US$ 1,4 bilhão em gastos dos consumidores, considerando a compra dos jogos e monetização dentro deles.

O dado mais interessante está na diferença entre os dois modelos.

Segundo a Ampere, o gasto médio dos consumidores em um remake foi 2,2 vezes maior do que em um remaster dentro da amostra analisada.

Ou seja, os dados recentes não sustentam a ideia de que remasters simplesmente vendem mais que jogos novos ou que remakes são menos lucrativos.

O cenário é mais complexo.

Remakes podem gerar mais receita do que remasters

Um remake geralmente exige muito mais trabalho.

Quando um estúdio recria completamente personagens, cenários, sistemas de combate, animações e outros elementos, o resultado pode ser vendido como uma experiência mais próxima de um lançamento novo.

É justamente por isso que o consumidor pode aceitar pagar o preço de um jogo premium.

O estudo da Ampere indica que, entre os 42 títulos analisados, remakes apresentaram em média 2,2 vezes mais gastos do consumidor do que remasters.

Isso ajuda a explicar por que as publishers não abandonaram os remakes mesmo diante dos custos maiores.

Existe uma oportunidade de transformar uma franquia antiga em algo que pareça suficientemente novo para alcançar tanto fãs antigos quanto uma audiência que nunca jogou o original.

Por que remasters continuam sendo importantes?

Se os remakes podem movimentar mais dinheiro, por que continuar lançando remasters?

Porque eles podem atender a outra necessidade do mercado.

Um jogo antigo pode ter envelhecido tecnicamente, estar preso a plataformas descontinuadas ou apresentar problemas de compatibilidade com sistemas modernos.

Um remaster pode resolver parte desses problemas sem exigir a reconstrução completa do jogo.

Isso permite recuperar um título conhecido e disponibilizá-lo para uma nova geração de jogadores.

O caso de Oblivion Remastered mostra justamente como uma atualização tecnológica pode despertar novamente o interesse por um RPG lançado originalmente em 2006.

Nem todo jogo antigo é uma aposta segura

Existe, entretanto, um problema: nostalgia não garante qualidade.

Um remake pode ter uma grande marca por trás e ainda assim decepcionar caso as mudanças não sejam bem executadas.

O mesmo vale para remasters.

Problemas técnicos, desempenho ruim, bugs, alterações controversas ou uma apresentação abaixo das expectativas podem transformar uma oportunidade comercial em uma experiência negativa para a comunidade.

Casos como Warcraft III: Reforged e Grand Theft Auto: The Trilogy – The Definitive Edition são frequentemente lembrados justamente porque demonstram que uma franquia conhecida não é suficiente para compensar problemas de execução.

O público pode aceitar revisitar um clássico, mas espera que a nova versão respeite aquilo que tornou o original importante.

O maior desafio é equilibrar passado e presente

Esse talvez seja o ponto central dos remakes e remasters.

Se a publisher alterar pouco, existe o risco de o público considerar o produto simplesmente uma versão antiga com resolução maior.

Se alterar demais, pode surgir a crítica de que o remake perdeu aquilo que fazia o original especial.

O equilíbrio entre nostalgia e modernização se tornou, portanto, uma das decisões mais importantes desse mercado.

Um bom projeto precisa fazer sentido para quem jogou o original e, ao mesmo tempo, funcionar para quem está conhecendo aquela franquia pela primeira vez.

E os jogos novos?

A popularidade dos remakes e remasters não significa que as publishers tenham abandonado completamente novas propriedades intelectuais.

O que os números indicam é que franquias conhecidas podem oferecer uma combinação atraente de reconhecimento, público potencial e oportunidade comercial.

Para uma empresa que precisa justificar investimentos cada vez maiores, trabalhar com uma marca já conhecida pode ser uma estratégia diferente de apostar tudo em um universo completamente novo.

O problema é que isso também pode criar uma indústria excessivamente dependente de propriedades antigas.

Se cada geração receber versões atualizadas dos mesmos jogos, existe o risco de diminuir o espaço destinado a novas ideias e franquias.

Nostalgia virou parte da economia dos games

O sucesso de Oblivion Remastered e os números levantados pela Ampere mostram que remakes e remasters deixaram de ser apenas produtos secundários.

Eles passaram a ocupar uma posição relevante dentro da estratégia comercial das grandes publishers.

A nostalgia ajuda a criar conexão emocional. As franquias conhecidas ajudam a reduzir a barreira de entrada. E os avanços tecnológicos permitem apresentar jogos antigos de uma maneira que pode parecer nova para uma geração diferente.

Mas os dados também mostram que não existe uma fórmula única.

Remakes, em particular, apresentaram gasto médio superior aos remasters na análise da Ampere, enquanto casos como Oblivion Remastered demonstram que um remaster também pode alcançar uma escala comercial enorme.

No fim, a verdadeira força não está apenas em vender o passado.

Está em conseguir convencer o jogador de que vale a pena voltar para ele.

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